Pode confiar
Eu acho muito engraçado o jeito que as grandes marcas globais agem na hora de incorporar uma marca local ou nacional, ou alinhar a marca nacional a suas marcas mundiais.Boa parte delas vai fazendo a mudança aos poucos, meio na calada da noite, para que o menor número de pessoas perceba. Tipo o HSBC Bamerindus. Alguém lembra do dia que ele passou a ser só HSBC? E a CRT Brasil Telecom, quando foi que tirou o CRT do nome? Provavelmente só eu lembro disso, mas aquela marca de bolos que hoje se chama Dr. Oetker um dia foi só Otker. A mesma coisa aconteceu com aquela linha de aromatizantes que um dia se chamou Gleid, e agora é Glade (tenho foto pra provar isso). Como se as donas de casa brasileiras tivessem aprendido a pronunciar palavras difíceis.
Mesmo que eu lembre de todos esses exemplos, as empresas não param de me surpreender. Tipo esses dias, quando eu fiquei em casa dormindo até mais tarde. Um som familiar foi surgindo baixinho na rua. Eu fui reconhecendo e, na minha cabeça ainda, sonolenta, cantarolando:
Se tem o lacre azul
do cachorrinho
Pode confiar
É Liquigás.
Acontece que o caminhão foi se aproximando mais e mais. E eu fui notando que tinha algo errado com a música. Não sabia se era a métrica, o arranjo, a linha de baixo mais crua ou o timbre de teclado que tinha mudado de Casio para Yamaha. Só quando o caminhão chegou bem perto é que eu notei que a diferença estava na letra:
Se tem o lacre verde
Da BR Petrobrás
Pode confiar
É Liquigás.
Achei incrível. Os caras tiveram a chance de acabar com o jingle mais odiado pelas associações de bairros, mas preferiram não só fazer uma adaptação tosca, mas também eliminar a única frase bem-humorada que existia na letra: o verso que chamava o logo da Agip-Liquigás - uma fera de SEIS PATAS que cospe FOGO - de “cachorrinho”.
Fico pensando se eles acharam que ninguém notaria a mudança, já que boa parte da população enfia a cabeça no travesseiro quando o caminhão de gás se aproxima. Mas eu noto, Petrobras, eu noto.

