Os últimos dias do tón-tón-plóin

Eu poderia tranqüilamente ter vivido nos anos 70. Mais da metade dos meus discos preferidos foram gravados entre 68 e 76. A profissão que escolhi viveu seu melhor momento no Rio Grande do Sul na década de 70. Acho os filmes, capas de discos, prédios, aparelhos de som, televisores, camisas de futebol, ventiladores e tudo mais produzido naquela época muito mais bonitos. Até meu time viveu seu auge nos anos 70 – naquele tempo, ele ganhava os títulos em um ano e não se desmantelava no ano seguinte. Já fiz umas extravagâncias por causa dessa preferência: passei uma semana de cabelo comprido, suíças longas e bigode, e comprei uma Variant ano 74 um tempo atrás (me arrependi em seguida, tanto do bigode quanto da Variant).
Por isso, fiquei triste quando soube que a única emissora de TV vintage do mundo está com os dias contados. A TV Guaíba, canal 2 de Porto Alegre, acaba de ser comprada pela Igreja Universal, e provavelmente vai retransmitir a Record e suas novelas com o Marcelo Serrado e a Lavínia Vlasak.
Fundada em 1979, a TV Guaíba já começou retrô. Seu fundador, Breno Caldas, não era um especialista em televisão, e gastou mais do que devia com equipamentos americanos da RCA, justo quando os japoneses da Sony, mais modernos e baratos, estavam sendo lançados. Todo esse gasto abalou as finanças de Caldas, e acabou influenciando no fechamento de seu jornal, o Correio do Povo, anos depois.
Mas valeu a pena: de que outra maneira veríamos, em pleno 2007, documentários alemães setentões sobre bicicletas e expedições na neve? Filmes como Cheech and Chong Up in Smoke e séries como 2-4-0 Robert passando às três da manhã? Receitas culinárias sendo preparadas ao vivo, em tempo real – numa época em que as emissoras convencionais cortam sem dó os créditos de seus programas pra comercializar 15 segundinhos a mais de mídia? A trilha roubada de Rocky, com o andamento prejudicado por uma fita beta meio mastigada, abrindo uma mesa redonda de futebol? O lendário Tón-tón, plóóóóin que corta ao meio cenas cruciais de filmes e séries? Vinhetas que ainda têm um locutor dizendo “ZYB 618, TV Guaíba”, seja lá o que isso signifique? Apresentadores bebendo água durante os programas? Dezenas de produtos sobre as bancadas dos cenários? Transmissões de futebol em que o narrador fica em silêncio quando não acontece nada, ao invés de pedir a opinião do Maurício Saraiva?
Não que eu amasse a programação da emissora, e assistisse seus programas sempre que tivesse uma chance. Mas é que eu sempre tive a TV Guaíba como certa na minha vida. Achei que estaria com 80 anos e ainda teria a chance pegar uma reprise daquele documentário da Transtel sobre Museus do Mundo, ou um tape completo de Inter x Glória passando de madrugada. Mas é óbvio que ela não sobreviveria à era das fusões e aquisições, e das igrejas com cadeiras de PVC. Pura ingenuidade minha. E ingenuidade, assim como a TV Guaíba, é coisa dos anos 70.
Por isso, fiquei triste quando soube que a única emissora de TV vintage do mundo está com os dias contados. A TV Guaíba, canal 2 de Porto Alegre, acaba de ser comprada pela Igreja Universal, e provavelmente vai retransmitir a Record e suas novelas com o Marcelo Serrado e a Lavínia Vlasak.
Fundada em 1979, a TV Guaíba já começou retrô. Seu fundador, Breno Caldas, não era um especialista em televisão, e gastou mais do que devia com equipamentos americanos da RCA, justo quando os japoneses da Sony, mais modernos e baratos, estavam sendo lançados. Todo esse gasto abalou as finanças de Caldas, e acabou influenciando no fechamento de seu jornal, o Correio do Povo, anos depois.
Mas valeu a pena: de que outra maneira veríamos, em pleno 2007, documentários alemães setentões sobre bicicletas e expedições na neve? Filmes como Cheech and Chong Up in Smoke e séries como 2-4-0 Robert passando às três da manhã? Receitas culinárias sendo preparadas ao vivo, em tempo real – numa época em que as emissoras convencionais cortam sem dó os créditos de seus programas pra comercializar 15 segundinhos a mais de mídia? A trilha roubada de Rocky, com o andamento prejudicado por uma fita beta meio mastigada, abrindo uma mesa redonda de futebol? O lendário Tón-tón, plóóóóin que corta ao meio cenas cruciais de filmes e séries? Vinhetas que ainda têm um locutor dizendo “ZYB 618, TV Guaíba”, seja lá o que isso signifique? Apresentadores bebendo água durante os programas? Dezenas de produtos sobre as bancadas dos cenários? Transmissões de futebol em que o narrador fica em silêncio quando não acontece nada, ao invés de pedir a opinião do Maurício Saraiva?
Não que eu amasse a programação da emissora, e assistisse seus programas sempre que tivesse uma chance. Mas é que eu sempre tive a TV Guaíba como certa na minha vida. Achei que estaria com 80 anos e ainda teria a chance pegar uma reprise daquele documentário da Transtel sobre Museus do Mundo, ou um tape completo de Inter x Glória passando de madrugada. Mas é óbvio que ela não sobreviveria à era das fusões e aquisições, e das igrejas com cadeiras de PVC. Pura ingenuidade minha. E ingenuidade, assim como a TV Guaíba, é coisa dos anos 70.




