Friday, February 23, 2007

Os últimos dias do tón-tón-plóin


Eu poderia tranqüilamente ter vivido nos anos 70. Mais da metade dos meus discos preferidos foram gravados entre 68 e 76. A profissão que escolhi viveu seu melhor momento no Rio Grande do Sul na década de 70. Acho os filmes, capas de discos, prédios, aparelhos de som, televisores, camisas de futebol, ventiladores e tudo mais produzido naquela época muito mais bonitos. Até meu time viveu seu auge nos anos 70 – naquele tempo, ele ganhava os títulos em um ano e não se desmantelava no ano seguinte. Já fiz umas extravagâncias por causa dessa preferência: passei uma semana de cabelo comprido, suíças longas e bigode, e comprei uma Variant ano 74 um tempo atrás (me arrependi em seguida, tanto do bigode quanto da Variant).

Por isso, fiquei triste quando soube que a única emissora de TV vintage do mundo está com os dias contados. A TV Guaíba, canal 2 de Porto Alegre, acaba de ser comprada pela Igreja Universal, e provavelmente vai retransmitir a Record e suas novelas com o Marcelo Serrado e a Lavínia Vlasak.

Fundada em 1979, a TV Guaíba já começou retrô. Seu fundador, Breno Caldas, não era um especialista em televisão, e gastou mais do que devia com equipamentos americanos da RCA, justo quando os japoneses da Sony, mais modernos e baratos, estavam sendo lançados. Todo esse gasto abalou as finanças de Caldas, e acabou influenciando no fechamento de seu jornal, o Correio do Povo, anos depois.

Mas valeu a pena: de que outra maneira veríamos, em pleno 2007, documentários alemães setentões sobre bicicletas e expedições na neve? Filmes como Cheech and Chong Up in Smoke e séries como 2-4-0 Robert passando às três da manhã? Receitas culinárias sendo preparadas ao vivo, em tempo real – numa época em que as emissoras convencionais cortam sem dó os créditos de seus programas pra comercializar 15 segundinhos a mais de mídia? A trilha roubada de Rocky, com o andamento prejudicado por uma fita beta meio mastigada, abrindo uma mesa redonda de futebol? O lendário Tón-tón, plóóóóin que corta ao meio cenas cruciais de filmes e séries? Vinhetas que ainda têm um locutor dizendo “ZYB 618, TV Guaíba”, seja lá o que isso signifique? Apresentadores bebendo água durante os programas? Dezenas de produtos sobre as bancadas dos cenários? Transmissões de futebol em que o narrador fica em silêncio quando não acontece nada, ao invés de pedir a opinião do Maurício Saraiva?

Não que eu amasse a programação da emissora, e assistisse seus programas sempre que tivesse uma chance. Mas é que eu sempre tive a TV Guaíba como certa na minha vida. Achei que estaria com 80 anos e ainda teria a chance pegar uma reprise daquele documentário da Transtel sobre Museus do Mundo, ou um tape completo de Inter x Glória passando de madrugada. Mas é óbvio que ela não sobreviveria à era das fusões e aquisições, e das igrejas com cadeiras de PVC. Pura ingenuidade minha. E ingenuidade, assim como a TV Guaíba, é coisa dos anos 70.

Monday, February 12, 2007

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Monday, February 05, 2007

Minha redação de férias

A pedidos (pedidos feitos por mim mesmo, já que eu não agüentava mais adiar esse post), seguem algumas historinhas da minha aventura na Bahia neste verão.

Vai trabalhar que é carnaval
Estive na Bahia nas primeiras semanas de janeiro, e sabia que iria encontrar uma Salvador já em ritmo de carnaval quando chegasse. Eu só não sabia que seria tanto, mas tanto assim. Porque, para quem vê pela TV, o carnaval da Bahia é só um monte de gente pulando em volta de um caminhão e ponto final. Mas, quando você chega na cidade e descobre que 80% dos outdoors estão ocupados com propaganda de blocos carnavalescos, começa a perceber que aquela festa toda que a gente vê é, na verdade, a época em que os baianos menos merecem a tal fama de preguiçosos. Tá todo mundo trabalhando. Garis e agentes de viagem. Flanelinhas e corretores de imóveis. Taxistas e publicitários. Imagino que o Carnaval seja, para as agências de propaganda de lá, tão importante quanto o Natal é para as nossas.


O verdadeiro ícone da música baiana
O Festival de Verão de Salvador disputava o espaço na mídia com os blocos de carnaval. E o evento é tão conhecido por lá que usa apenas um selinho para se identificar em outdoors e outra peças. Tipo Nike, saca? Nada de letreiro “Festival de Verão 2006” abaixo do logo: apenas uma bolinha amarela com um rasta estilizado dentro serve para identificar o festival. Isso sim é um ícone da música baiana. Chora, Caetano.



Chiclete com banana com vinho com gasolina
Tá, eu sei que esse papo de carnaval tá ficando longo, mas, acredite, é necessário. Eu preciso preparar vocês para falar da improvável linha de produtos licenciados do Chiclete com Banana. Um deles está bem grandão aí na foto, abraçadinho com o belíssimo vocalista Bell Marques: o Chicleteiro Cabernet Sauvignon/Malbec safra 2004. Antes que você pergunte quem gastaria R$ 15 em um vinho com esse nome, saiba que tem muita gente por lá que gastou R$ 45.000,00 em uma Ford Ecosport série especial Chiclete com Banana, com o logo do grupo (uma pata de camaleão verde-limão) na traseira e nas laterais. Será que a Ford lançaria uma série especial Humberto Gessinger se tivesse ficado em Guaíba? Ou quem sabe uma Ecosport Lasier Martins, com um cachinho de uva nas laterais?




A estética do dendê
Ao contrário do que acontece no Rio e em outras cidades com praia, em Salvador o culto ao corpo não predomina – o que até ajuda a deixar branquelas relaxados como eu um pouco mais à vontade. Nas areias das praias que visitei na capital (que tinham os originais nomes de Flamengo e Barra), havia pouquíssimos soteropolitanos e soteropolitanas bombados. Mas nada disso impede que eles usem os menores trajes de banho disponíveis no mercado. Eu já estava procurando explicação em indicadores sociais, miscigenação de culturas ou condições geográficas da região, mas aí vi uma barraquinha de acarajé e parei de bancar o antropólogo: é óbvio que o possante e onipresente azeite de dendê tem muito a ver com isso.


Maratona Sem Magalhães
Uma vez me disseram que o Roberto Carlos, no auge do transtorno obsessivo-compulsivo, não dobrava à esquerda quando andava de carro. Não acreditei. Para mim parecia impossível fazer qualquer trajeto desse jeito. Mas é ainda mais impossível andar por Salvador sem passar por alguma rua, praça, viaduto ou monumento batizado com o sobrenome Magalhães. Aliás, taí uma grande idéia para os opositores do ACM: organizar a Maratona Sem Magalhães pela cidade, passando apenas pelos logradouros que resistiram aos anos de Toninho.


O Toscani da Bahia
Além do Carnaval, tem outra coisa que chama de cara a atenção de quem chega em Salvador: placas nos postes, empenas de prédios (foto), traseiras de ônibus, postos de salva-vidas e qualquer outro espaço urbano que você imaginar estavam tomados por fotos de baianos, todos negros. O publicitário aqui achou que era um teaser de campanha, e errou por pouco. O autor das fotos, Sérgio Guerra, é um publicitário pernambucano que tem uma agência em Angola. Mas, ao invés de uma campanha, as fotos integravam o projeto Salvador Negro Amor, a maior exposição já feita ao ar livre no mundo. Como toda iniciativa milionária cercada de grandes patrocinadores, a campanha divide opiniões na cidade. Particularmente, gostei mais do meio do que das fotos em si. Se estivessem em um álbum de fotos da Sulcolor, eu passaria batido por elas. Até porque os personagens das fotos estão todos passando ali na calçada, ao vivo, em movimento, prontos para conversar, interagir e, principalmente, vender colares e fitinhas para turistas.

Internacional, sim. Gringo, jamais
Cansado de ser confundido com um gringo sem ter a menor cara de gringo, tomei uma providência na minha última visita ao Pelourinho: vesti uma camiseta do atual campeão do mundo para deixar bem claro de onde eu era. Não só funcionou como atraiu a simpatia da população - e serviu para conseguir lugar mais rápido em um restaurante. Graças à camiseta, descobri que, no dia da final, teve até carreata colorada nas praias da Barra e Ondina.

O ABC da Bahia
O resto das minhas férias passei na praia de Itacaré, na chamada Costa do Cacau, não muito longe de Ilhéus. Lá, descobri, além do óbvio (praias lindas, trilhas incríveis, insetos até então desconhecidos, camarões gigantes), que as crianças mais pobres do interior da Bahia aprendem um alfabeto levemente diferente do nosso. Elas acham que C, ao invés de Cê, é Quê. Que L não é Éle, e sim Lê. F é Fê. M é Mê. E por aí vai. Não é uma suposição, e sim palavra de um amigo que mora lá há alguns meses e conversou com dezenas de crianças locais. Ele também me contou que muita gente do interior da Bahia acha que o Brasil termina em São Paulo; quem tentar dizer que é de Porto Alegre, uma cidade mais ao Sul de São Paulo, vai ser invariavelmente confundido com gringo, ainda que fale português. E, no fim das contas, a diferença é tanta que é isso mesmo que nós somos: uruguaios e argentinos que acabaram escapando para o lado errado do Tratado de Tordesilhas. Quem sabe não é a gente que está falando a língua errada?