Friday, April 28, 2006

Mata-mata

Estádio de Munique, 5 de julho. Estados Unidos e Irã disputam a semifinal da Copa do Mundo. O jogo está no início do segundo tempo, e o placar é um a zero para os americanos. Na torcida do Irã, Ahmed parecia ser o torcedor mais tranqüilo. Mas isso não tinha nada a ver com o jogo. Ahmed estava calmo porque já tinha cumprido a parte mais difícil da sua missão nesta Copa: comprar juízes e auxiliares, sabotar comida e água de atletas, e o que mais fosse preciso para forçar um cruzamento entre Estados Unidos e Irã nas semifinais, a mando de terroristas ligados ao presidente Mahmud Ahmadinejad. Agora só faltava fazer uma coisa: tirar um controle remoto de alarme de carro do bolso e apertar um botão. Imediatamente, as bombas colocadas nas caneleiras dos atletas de seu país explodiriam sem que eles soubessem e atingiriam os americanos que estivessem por perto.

A orientação era para que Ahmed apertasse o botão numa cobrança de escanteio no final do jogo. Se o Irã estivesse ganhando, a bomba seria detonada durante uma cobrança para os Estados Unidos. Se os EUA estivessem ganhando, a bomba seria detonada durante uma cobrança para o Irã. Nessas horas, quase todo o time avança para a área adversária, e a possibilidade de acertar um grande número de americanos aumentava.

Como o Irã perdia, a espera de Ahmed era por um escanteio para seu time. Mas o time dos EUA parecia querer estragar os planos dos terroristas. Tocava a bola com competência no meio campo, marcava a saída do adversário e até arriscava alguns chutes de fora da área. O Irã, quando ultrapassava a linha divisória, não encontrava ninguém desmarcado. Foi assim no início da segunda etapa, depois aos 20, 25, 30 minutos do segundo tempo. A essa altura, Ahmed já estava tão nervoso quanto o resto da torcida do Irã. Qualquer erro que acontecesse, mesmo que não fosse responsabilidade dele, custaria a sua vida. Ele já olhava, tenso, para os portões de saída do estádio, procurando uma boa fuga caso tudo desse errado, quando viu a torcida se levantar.

É contra-ataque do Irã pela esquerda. O volante interceptou uma bola alta, dominou, lançou o lateral. O lateral parou a bola, olhou pra frente, não viu ninguém e foi em direção à linha de fundo. Chegando lá, deu um corte no marcador e cruzou alto. Um zagueiro americano e o centroavante do Irã subiram juntos para cabecear. O juiz, um experiente gaúcho que estava apitando sua última copa, mesmo acompanhando o lance à distância, não hesitou em marcar escanteio.

A mão do juiz apontando para a bandeirinha de escanteio despertou Ahmed, que meteu apressadamente a mão nos dois bolsos da calça em busca do controle remoto. Quanto mais procurava, mais tenso ficava. Desesperado, olhou para baixo e tirou tudo o que encontrou nos bolsos. O controle apareceu no bolso direito. Ele apertou o botão na hora, olhou para o campo e tremeu como nunca havia tremido na vida.

O assistente, um venezuelano recém-integrado ao quadro da Fifa, estava apontando tiro de meta. Todos os jogadores do Irã corriam para cercar o bandeirinha e pedir explicações. O juiz também corria para lá, já sacando um cartão amarelo para aplicar no lateral esquerdo, o mais exaltado do grupo.

O cartão amarelo nem chegou a ser erguido. Os onze jogadores do Irã explodiram na linha lateral, atingindo o juiz e o bandeirinha, para espanto da seleção americana, que tomava água do outro lado do campo, e das torcidas.

O atentado repercutiu no mundo todo.

Os Estados Unidos elegeram mais uma vez um presidente republicano, que alertou em sua campanha para os riscos do terrorismo chegar ao Superbowl e à NBA. A guerra contra o Irã foi anunciada horas depois do novo comandante tomar posse.

Na Venezuela, a morte do assistente, transformado em herói pela mídia local, causou comoção. A pressão popular pela punição dos culpados foi tanta que Hugo Chávez não teve saída: acabou se aliando ao governo americano na guerra contra o Irã.

Ahmed foi procurado nos cinco continentes, até ser encontrado num refúgio no interior da Bielo-Rússia. Foi morto por compatriotas.

A prefeitura de Munique, traumatizada pelo segundo atentado em eventos esportivos da sua história, proibiu a realização de qualquer jogo internacional, seja de que esporte for, na cidade.

A Fifa, além de reforçar a segurança nas copas, aboliu a figura do bandeirinha, e introduziu o recurso do vídeo tira-teima em torneios de seleções.

A morte do árbitro gaúcho também teve suas conseqüências: o Inter ficou cinco anos sem ganhar Gauchão.

Thursday, April 13, 2006

Cúmulo

Se você pegasse o telefone agora e do outro lado da linha estivesse um sujeito falando diretamente de uma estação espacial, o que você diria? Perguntaria sobre como é a terra lá de cima? Sobre a comida por lá? Ou a solidão? Faria questões sobre como é acordar de pau duro no espaço? Ou divagaria sobre a vida, o universo e tudo mais?

Pois é, nosso presidente foi o único brasileiro que teve essa chance na história. E sabe sobre o que ele falou? Sobre o Noroeste de Bauru. Isso mesmo. Fora as puxa-saquices diplomáticas de sempre para ganhar voto, a grande observação do Lula ao conversar com o Marcos Pontes foi “o seu time lá de Bauru, o Noroeste, tá mal das pernas, hein?” E o pior é que o cara torcia pro Santos. E o pior ainda era que o Noroeste nem tava mal - era o time do interior melhor colocado no Paulistão 2006.

Então, se um dia você estiver fazendo aquelas piadas de cúmulos com alguém (tipo “qual o cúmulo da força? Dobrar uma esquina”, ou ainda a genial “qual o cúmulo do espiritismo? Fazer tricô com a Lã Kardec”), pode dizer sem hesitar:

- Sabe qual é o cúmulo da falta de assunto? Ter um minuto para falar com um astronauta, e usar esse minuto para falar mal do Noroeste de Bauru, sendo que o astronauta torce pro Santos e o Noroeste de Bauru tá com um baita time.

Thursday, April 06, 2006

Flamarion