Tuesday, November 08, 2005

Futebol e presidentes

1.

Eu devia ter uns dez ou doze anos quando o Internacional anunciou, em meio a um campeonato, a contratação do técnico Francisco Neto, o popular Chiquinho. O Chiquinho era um sujeito muito chinelo: bigodinho grisalho ralo, voz de quem passou a noite inteira bebendo cachaça e discutindo esquema tático com um cachorro vira-lata, palito de dente na boca, olhos vermelhos e, se não me engano, um óculos Ray-Ban comprado em um camelô de Pelotas (ele costumava treinar alternadamente o Pelotas e o Brasil, e, por conta deste vasto currículo, conseguiu uma vaga no Inter da era Záchia).

Não que os outros técnicos do Brasil fossem um exemplo de boa postura ou altivez, mas eu achava o Chiquinho chinelo demais pra ser técnico do Inter. Sei lá, ele simplesmente parecia não estava à altura daquela casamata de acrílico do Beira-Rio. As três estrelas (na época eram três) do uniforme não faziam sentido junto daquele cara, muito menos o abrigo patrocinado pela Umbro e pela Coca-Cola. Ele podia até ser uma baita técnico - o que a história e os Gauchões subseqüentes acabaram não confirmando - mas simplesmente não tinha a classe que o cargo exigia. E eu, ao perceber aquilo pela TV, sentia vergonha, muita vergonha.

Deve ser isso que os venezuelanos sentem ao ver o Hugo Chávez na TV.


2.

Eu gosto do Roda Viva porque ele é a Bombonera dos programas de entrevistas. A primeira fileira de jornalistas raivosos, a segunda fileira de formadores de opinião fazendo cara feia, o cartunista frenético desenhando sem parar, os e-mails de telespectadores chegando, a cadeira desconfortável do entrevistado com o copinho d’água sempre prestes a virar, aquela abertura estonteante com trilha de filme de terror, tudo ali é feito pro cara perder a concentração e acabar dizendo uma ou outra coisa que não poderia ter dito. Exatamente como o estádio do Boca e suas três fileiras de arquibancadas a centímetros da linha lateral.

É por isso que ontem eu sentei em frente à TV cheio de esperança. O Lula, que não gosta de dar entrevistas, era o entrevistado do Roda Viva. Achei que aquela multidão de gente perguntando sobre o mensalão, as mutretas dos filhos, o caixa 2, o avião e tudo mais ia fazer o Lula deixar escapar alguma merda.

Acontece que a entrevista não foi no estúdio do Roda Viva, e sim no Palácio do Planalto. Não tinha a cadeira, os formadores de opinião, o cartunista frenético. E assim o Lula acabou não jogando na Bombonera. Jogou em Salta, e conseguiu um morno empate sem gols.

O Inter pediu para o Boca Juniors não marcar o jogo dessa quinta-feira em Salta, uma pacata cidade quase na fronteira com a Bolívia. Preferiu a Bombonera. Foi um ato de coragem, mas sei não. Acho que o Fernando Carvalho ainda tem muito o que aprender com o Lula.

4 Comments:

Anonymous Anonymous said...

How Mainstream Can Blogs Get, Anyway?
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2:07 PM  
Anonymous Emiliano said...

bah, que afudê

4:10 PM  
Blogger clarissa said...

também acho. tudo o que foi dito pelo leo e emi, anônimo, tu não.

9:31 AM  
Anonymous Emiliano said...

Ignorei o anônimo, li o Leo.

10:05 AM  

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