Thursday, September 22, 2005

Nova série


Monday, September 12, 2005

Meu passado me absolve

A única maneira de uma pessoa não se envergonhar do que escreveu aos dezessete anos é nunca ter escrito nada sério aos dezessete anos. Dia desses, estava procurando em minhas coisas uma letra de música que pudesse servir para a banda de umas amigas minhas e encontrei essas pérolas, provavelmente escritas entre 1994 e 1997. Achei sensacional. Não conseguiria escrever isso hoje.

Cama de mola

Nunca vou esquecer
Naquela tarde quente de Natal
Toca o meu celular digital
Atendo e ouço a voz de meu amor

Ela chega e me diz
“Pega o Vicasa e te manda pra cá
Tenho uma coisa para te mostrar”
E eu respondo: “Já vou, minha flor”

Saí correndo
Comprei Underberg no supermercado
Também Miliopã, condimento adequado
À noite de amor prestes a acontecer

Chegando lá
Confesso, fiquei muito desapontado
A cama, o colchão, fora tudo trocado
Surpresa pior não poderia haver

(Refrão)
Cama de mola
Rangendo fogosa gemidos de lata
Amando ao relento sob a lua prata
Te vendo assim, nada mais me consola

Cama de mola
Palco principal de um amor vadio
Descansa em paz no terreno baldio
Sedenta por carne e ninguém lhe dá bola


Gritei, xinguei
E a cama nova chutei, irritado
Voando madeira para todo lado
E ela juntando, inquieta, a chorar

Não perdoei
Falei: “Meu amor, está tudo acabado”
E ela me disse: “Era aglomerado
Padrão cerejeira, comprei na Bomlar”

Repete refrão



Mais outra, que não tem nome:

Aquela estátua do Wando
Feita em sabão Maraschin
Foi pelo ralo do tanque
Desfez-se na água
E lavou meu carpim

Aquele naco de bacon
Guardado na Frigidaire
Passei por todo teu corpo
Untando de beijos
Tua tez de mulher

Aquele bilhete rosa
No limpador do Del Rey
Ficou manchado de molho
E um grão esmagado
De arroz chop-suey

O guardanapo do Rib’s
Com marcas do teu batom
Ficou debaixo da cama
Amando escondido
Com a luz o neon

Na tua casa da praia
No balneário Pinhal
Ficou minha sunga verde
Com gosto de peixe
E cheirando a Bardahl

Quando quebrei no banheiro
O engradado de Sidra
Foi-se o salário do mês
Ao puxar a descarga
Da válvula Hidra



E outra:

Travesseiro

Seis da manhã
O meu sexo bifurca a urina
Que escapa de entrar na latrina
E encharca o capacho de lã

O fecho-eclér
Cerra a porta a um soldado valente
Que encontrara seu refúgio quente
Na figura de uma mulher

(Refrão)
E o que que eu faço
Te vejo na rua e já chego correndo
E nem Bibo Nunes, nem Super Nintendo
Afastam o meu pensamento em você

Absorvente
Não é suficiente pra secar meu pranto
Me pego matando barata num canto
Brincando de OTAN com o SBP

Já no meu lar
Tiro a fronha do meu travesseiro
Como fosse o pano derradeiro
Pra conquista de um corpo macio

Ao acordar
Ao invés de uma linda morena
Eu me acordo com um saco de pena
Que preenche um imenso vazio.

(repete refrão)