Wednesday, August 24, 2005

Os comerciais da minha vida

Tenho uma espécie de memória seletiva ao contrário. Dispenso todas as lembranças fundamentais, e fico com as absolutamente irrelevantes. Sou capaz de esquecer onde coloquei um ticket de estacionamento dois minutos depois de ter colocado o maldito no bolso, mas lembro cada detalhe do que dizia o locutor do ônibus que vendia mandolates caseiros e produtos do Maquiné na praia. Esqueço aniversários de pessoas próximas, mas sei de cor todos os jingles dos candidatos da eleição presidencial de 89 – incluindo os jingles daqueles candidatos nanicos, como o Corrêa, o Pedreira e o Zamir.

Com propaganda também é assim. Não dou 15 dias para já ter apagado completamente da memória os Grand Prix de Cannes deste ano. Não tenho a menor idéia do que vi na Archive que folheei ontem. Mas tem um punhado de comerciais do início da década de 80 que eu não consigo tirar da cabeça. E esse texto é uma tentativa desesperada de descobrir se alguém mais compartilha essas lembranças comigo.

O primeiro comercial que lembro deve ter veiculado lá por 1982. Era para uma marca de café. Haiti, Pacheco, não sei bem – eu tinha cinco anos na época, não era bem o público-alvo dos cafés. O filme mostrava um cara tomando café da manhã e falando sobre as qualidades do Café Pacheco (ou Haiti). Aí entrava assinatura, imagem do produto e voltava pro cara, que dava um socão na mesa e dizia:
- Esse eu não troco!

As xícaras, colheres e baixelas voavam na mesa e a cena congelava, para meu pânico. Lembro de sair correndo de medo toda vez que via esse comercial.

Outro filme que lembro bem é um que vendia telhas. Era das telhas Brasilit, e imagino que tenha veiculado por uns cinco anos, de tão clara que é a lembrança que eu tenho dele. Era um desenho animado de um bichinho que dormia debaixo de um coqueiro e tomava cocos na cabeça. Ele colocava a telha Brasilit no coqueiro com a ajuda de um galho, e tudo se resolvia. Eu não tinha acesso a pesquisas nessa época (e, para nossa felicidade, o Powerpoint não existia), mas imagino que tenha sido um sucesso.

E tem um outro, que eu tenho certeza que muita gente vai lembrar. Rolava direto na TV Bandeirantes no final dos anos 80. Era do CVV (Centro de Valorização da Vida).

O filme mostrava uma senhora de uns 70 anos andando sozinha pelo corredor de uma casa. A trilha era um pianinho melancólico. Ela ia abrindo portas no corredor. Cada porta era um quarto vazio, de onde vinham vozes. No primeiro quarto, ela abria e vinha a voz de duas crianças gritando “Mãe, mãe, olha aqui”.

No segundo quarto, um solo de guitarra e um grito de guri adolescente:
- Ei, mãe! Vem dançar esse rock com a gente!

No terceiro, um quarto de casal, ela abria a porta e um homem meio gaguejante dizia:
- Querida, desculpe se te magoei.

Assinava com uma locução dizendo pra ligar para o CVV caso você se sentisse sozinho e triste. Sem dúvida, é o comercial mais triste que já vi na vida. Tenho certeza que fez milhões de pessoas se debulharem em choro, quando só o que elas queriam era ver o programa da Silvia Poppovic no meio da tarde.

Eu trocaria um leão de ouro em Cannes para saber a ficha técnica desses três filmes. E um Pulitzer (eu sei que publicitário não ganha Pulitzer, mas sempre quis escrever essa palavra) para ver todos eles de novo. Até pra ver se eles são tão bons quanto a minha memória bizarra acha.

12 Comments:

Anonymous Anonymous said...

só lembro do côco, e era fofo, dava no intervalo do jornal do almoço. e deve ter passado até ontem, visto que minha memória não é seletiva, ela é encostada pelo INSS.
clarissa

12:06 AM  
Blogger Aninha said...

Bah, o do bichinho das telhas eu lembro muuuuito. Quando eu era criança adorava. Tinha vontade de morar em um buraco só pra colocar uma telha em cima.

9:23 AM  
Anonymous Anonymous said...

leo, encontrei uma dissidência que garante que a propaganda era do tumelero e não da brasilit. será?
clarissa

12:40 PM  
Anonymous Anonymous said...

Era pra vender telhas Brasilit no Tumelero. O chamado cooperativado.
Leo

2:15 PM  
Anonymous Joelma said...

Talvez por ter crescido em Alagoas e não no RS, provavelmente não vi nenhum desses.

Mas também queria rever aquele que a mulher dizia no final "Ora, meu bem, vá plantar batatas.", ao que ele respondia: "OBA! PURÊ!". Era o máximo.

E aquela da Caixa Econômica Federal, uma animação com musiquinha: "Era uma vez, três sacis...". Daria o mindinho pra lembrar o resto da música.

10:14 AM  
Blogger Bri said...

Esse da CVV eu acabei de descobrir no teu blog que era da CVV. Acho que eu era muito pequena, mas ficava muito impressionada com aquele corredor. Ficou bastante tempo...
Falando em tumelero, tem aquele dos palhaços que virou lenda tb.

10:18 PM  
Anonymous Bruno said...

Acho que em um nível ou noutro todos se identificam com essa seletividade de fatos incompreensível da memória. Eu, por exemplo, me lembro claramente de quando um gordo vestido de boiadeiro foi num programa do cinco onde eram feitas releituras de músicas populares, para cantar a sua versão de "Rei do Gado".
Mais claramente ainda me lembro do seguinte trecho:
"...e agora mudei.
Dançei no bordel,
botei lenço e véu,
troquei o meu chapéu
e agora sou gay."

Espero que não queira dizer nada.

6:50 PM  
Blogger Aninha said...

E do louco por lee, alguém lembra?

1:27 AM  
Blogger sebastiao said...

sobre este do corredor, nem sabia que era do cvv, mas sem dúvida o comercial mais triste que já vi (me arrepiei só de lembrar). o que mais me irrita é que tem um comercial que eu lembro muito e quando conto pras pessoas, ninguém compartilha da minha lembrança. era contra o alcolismo. era assim.
O cara chega em casa. A mulher diz:
- Osvaldo, você está bêbado de novo.
Ele quebra um vaso e outras coisas e retruca, agressivo e com voz de gambá:
- Não me enche o saco!
A criança se agarra à barra da saia da mãe e chora:
- Mamãe, mamãe, eu estou com medo do papai.

11:39 PM  
Anonymous Jaques said...

As boas coisas,trabalhos bem feitos cumprem o seu papel:no caso publicidades ou como diz um bom portuga os bons reclames têm essa capacidade de ficar residual, muito tempo...No momento tento lembrar de outras ,mas me lembro das lavadouras de roupas Westinghouse .Cada vez que sei de algúem chamado Amaury ,lembro-me dessa propaganda.Na época eu morava em Pelotas e tinha um colega na FOP chamado Amaury e todos os colegas soombavam dele,dizendo AAAAMAURY !!! "´só serve pra dar trabaho prá mamãe e prá mim!" esse era o teor da propraganda:Um adolescente chegava em casa do futebol,todo sujo ,cansado e tinha uma irmã ,óculos fundo de garrafas,feiosa que só ! Gritava com ele:" AAAAAMAURY!só serve pra trabalho prá mam~e e prá mim",ele não dava bola...largava a roupa toda suja,continuava andando e dizia " essa minha irmã ,tá precisando casar !"
Tem algumas outras ,mas essas era o máximo,deve ter já os seus 30 anos,mas não a esqueci !

VY' 73 Jaques (5JAT)

5:13 PM  
Anonymous Anonymous said...

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4:03 AM  
Anonymous Anonymous said...

nao precisa dar o mindinho joelma. olha a musica aqui:
Era uma vez tres sacis
de gorro vermelho e cachimbo
brincando nas matas daqui
viviam felizes
brincando daqui e dali
quando lá do arvoredo morrendo de medo a coruja gritou
- Cuidado sacis , olha a onça!!
E a onça correu atras dos sacis
que mais que depresa fugiram dali
e no meio do mato ficaram a pensar
que jeito que jeito a gente vai dar

Foram a cidade e abriram uma caderneta economico e a historia mudou. foram ajuntando dinheiro
e logo o sonho se realizou
fizeram no alto do galho uma casa tao linda que a onça chorou

- Grrrr, nunca mais vou pegar os sacis.

- Dona ooooonça

10:20 PM  

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