Tuesday, August 30, 2005

E mais tiras







Com especial agradecimento ao Rodrigo Pereira, escaneador oficial da Seleção Brasileira.

Preconceito não faz mal a ninguém

As pessoas ficam repetindo esses lugares-comuns, dizendo que preconceito é feio, é isso, é aquilo. Mas a verdade é que preconceito pode ser muito bom. Serve para poupar preciosas horas e preciosos reais. Preconceito é o que vai evitar, por exemplo, que eu veja esse filme sobre Zezé de Camargo e Luciano que tá passando nos cinemas, apesar de algumas crescentes recomendações de amigos.

Já é difícil me tirar de casa pra ver um filme nacional. Eles normalmente são mal dirigidos, mal filmados, mal contados, têm diálogos ruins, atores que pensam que estão no teatro e, o que é pior, são feitos com a grana que eu usaria pra comprar vários DVDs de filmes estrangeiros em promoção. Mais difícil ainda é me tirar de casa pra ver um filme nacional cujos personagens pricipais são dois merdas cujo talento dava, no máximo, pra bancar uma carreira de picareta de carros, e cujo último highlight da carreira foi ajudar a eleger um governo ladrão. Ah, mas eles rendem uma história, tiveram uma infância pobre, dizem alguns. Piça. Tô cagando pra isso. Todo mundo teve infância pobre no Brasil.

Se é por isso, por que não fazer um filme sobre o Silvio Santos? Esse, além de ter tido infância pobre, é um personagem esperto, inteligente, divertido, cheio de histórias ocultas para contar. Imagino que o risco de se fazer um filme desinteressante com um tema desses seja baixíssimo. E acho que é aí que está o problema. Os cineastas nacionais têm o maior medo de fazer coisas boas. Imagina, nem pensar. O que o Cacá Diegues vai dizer?

Wednesday, August 24, 2005

Os comerciais da minha vida

Tenho uma espécie de memória seletiva ao contrário. Dispenso todas as lembranças fundamentais, e fico com as absolutamente irrelevantes. Sou capaz de esquecer onde coloquei um ticket de estacionamento dois minutos depois de ter colocado o maldito no bolso, mas lembro cada detalhe do que dizia o locutor do ônibus que vendia mandolates caseiros e produtos do Maquiné na praia. Esqueço aniversários de pessoas próximas, mas sei de cor todos os jingles dos candidatos da eleição presidencial de 89 – incluindo os jingles daqueles candidatos nanicos, como o Corrêa, o Pedreira e o Zamir.

Com propaganda também é assim. Não dou 15 dias para já ter apagado completamente da memória os Grand Prix de Cannes deste ano. Não tenho a menor idéia do que vi na Archive que folheei ontem. Mas tem um punhado de comerciais do início da década de 80 que eu não consigo tirar da cabeça. E esse texto é uma tentativa desesperada de descobrir se alguém mais compartilha essas lembranças comigo.

O primeiro comercial que lembro deve ter veiculado lá por 1982. Era para uma marca de café. Haiti, Pacheco, não sei bem – eu tinha cinco anos na época, não era bem o público-alvo dos cafés. O filme mostrava um cara tomando café da manhã e falando sobre as qualidades do Café Pacheco (ou Haiti). Aí entrava assinatura, imagem do produto e voltava pro cara, que dava um socão na mesa e dizia:
- Esse eu não troco!

As xícaras, colheres e baixelas voavam na mesa e a cena congelava, para meu pânico. Lembro de sair correndo de medo toda vez que via esse comercial.

Outro filme que lembro bem é um que vendia telhas. Era das telhas Brasilit, e imagino que tenha veiculado por uns cinco anos, de tão clara que é a lembrança que eu tenho dele. Era um desenho animado de um bichinho que dormia debaixo de um coqueiro e tomava cocos na cabeça. Ele colocava a telha Brasilit no coqueiro com a ajuda de um galho, e tudo se resolvia. Eu não tinha acesso a pesquisas nessa época (e, para nossa felicidade, o Powerpoint não existia), mas imagino que tenha sido um sucesso.

E tem um outro, que eu tenho certeza que muita gente vai lembrar. Rolava direto na TV Bandeirantes no final dos anos 80. Era do CVV (Centro de Valorização da Vida).

O filme mostrava uma senhora de uns 70 anos andando sozinha pelo corredor de uma casa. A trilha era um pianinho melancólico. Ela ia abrindo portas no corredor. Cada porta era um quarto vazio, de onde vinham vozes. No primeiro quarto, ela abria e vinha a voz de duas crianças gritando “Mãe, mãe, olha aqui”.

No segundo quarto, um solo de guitarra e um grito de guri adolescente:
- Ei, mãe! Vem dançar esse rock com a gente!

No terceiro, um quarto de casal, ela abria a porta e um homem meio gaguejante dizia:
- Querida, desculpe se te magoei.

Assinava com uma locução dizendo pra ligar para o CVV caso você se sentisse sozinho e triste. Sem dúvida, é o comercial mais triste que já vi na vida. Tenho certeza que fez milhões de pessoas se debulharem em choro, quando só o que elas queriam era ver o programa da Silvia Poppovic no meio da tarde.

Eu trocaria um leão de ouro em Cannes para saber a ficha técnica desses três filmes. E um Pulitzer (eu sei que publicitário não ganha Pulitzer, mas sempre quis escrever essa palavra) para ver todos eles de novo. Até pra ver se eles são tão bons quanto a minha memória bizarra acha.

Friday, August 19, 2005

Cidreira abaixo de zero

Quando eu vi na TV todas aquelas pessoas se degladiando pra tocar no Marcos Breda, gritando por causa da chegada da Bárbara Paz e pedindo desesperadamente um autógrafo do Antônio Calloni, não tive dúvida: Gramado é a nossa Cidreira de inverno.

Tuesday, August 16, 2005

Mais tiras





Agradeço ao Fabiano, ao Pedro Becker, ao Burger, a Luiza e quem mais porventura tenha ajudado a fornecer a história do Recolhe.

Thursday, August 11, 2005

Olha e aprende, Dirceu

A notícia do roubo do Banco Central me deixou muito feliz. Fiquei satisfeito em ouvir uma notícia sobre roubo e entender como foi. Nada de caixa 2, empresa laranja, financiamento de campanha, títulos da dívida pública, precatórios, empréstimos sem garantia, superfaturamento, Opportunity. Simplesmente um túnel subterrâneo e uma empresa de grama sintética (que se chamava...Grama Sintética) para disfarçar. Simples e genial.

Além disso, não é um roubo que dá raiva, como roubo de CD player de carro ou batida de carteira de velhinho no Centro. Não mesmo. Os caras trabalharam pesado, planejaram, pensaram em cada detalhe, provavelmente ficavam vendo e revendo Matadores de Velhinha e Small Time Crooks no DVD pra não repetir os erros dos personagens do filme. Eu diria que é um dos melhores serviços já feitos na história do país. Parabéns a todos os envolvidos.

Monday, August 08, 2005

Redator de Sabonete

Algumas pessoas andaram dizendo que deve ser muito legal ser o sujeito que cria o nome daquelas operações da Polícia Federal, tipo "Operação Cevada" e "Operação Narciso".

Mas, passeando pela seção de sabonetes do Zaffari, eu encontrei uma profissão ainda mais divertida: criar nomes para os sabonetes Lux Luxo. Dentre os nomes atuais, destaco os sensacionais "Esfoliação Luminosa" e "Massagem Marinha". Massagem marinha? Que que é isso? A sensação de ser tocado pelos fios de uma mãe d'água? A vibração de colocar um papa-terra dentro do calção?

Enfim, empolgado com a possibilidade de juntar-me ao time da Gessy-Lever, resolvi criar umas peças para meu portfólio saponáceo. Lá vão elas:

Regozijo Arenoso
Borbulhar Esfuziante
Frenesi Almiscarado
Frisson Relaxante
Comichão Invernal
Vagalhão Incandescente
Arrepio Enebriante
Orgasmo Boreal

A caixinha dos comments aceita novas sugestões.

Friday, August 05, 2005

WC: cuide do seu

Ir no banheiro sempre traz boas idéias. Seja no banho, seja no vaso. Sempre que preciso ir no banheiro aqui na agência, levo um bloquinho e um lápis no bolso. Muitas vezes já aconteceu de sair uma idéia legal na mesma hora em que está saindo a cacaca. Não sei se existe alguma explicação para isso. Talvez seja um momento em que a mente está se libertando das coisas desnecessárias e abrindo uma vaga para coisas melhores. Talvez o fato da pessoa estar completamente sozinha, isolada de qualquer tipo de repressão ou censura, faça com que as idéias saiam mais naturalmente.

Todas as explicações soam meio bestas, mas sei que muita gente já desfrutou dos benefícios de levar o bloquinho para o banheiro. Acho muito provável que Newton estivesse cagando embaixo daquela macieira. A história da maçã na cabeça foi a primeira lenda urbana da história.

Acredito que os banheiros tenham sido responsáveis por boa parte das idéias revolucionárias, dos objetos úteis, das grandes letras de música.

Mas há indivíduos que não pensam assim. E eles estão, neste momento, pensando em novos obstáculos para que os banheiros deixem de ser esses verdadeiros templos do livre pensar.

Eles começaram com aquelas torneiras que desligam automaticamente. No início, elas ficavam abertas por sete segundos. Passaram para cinco. Hoje, elas necessitam ser apertadas a cada dois segundos, enquanto você usa a outra mão para apertar o dispensador de sabão líquido – que também era muito mais simples de acionar há dez anos.

Isso quando a torneira não tem sensor. O cara que inventou a torneira com sensor tem que morrer com uma pia de mármore enfiada no rabo. O sensor nunca encontra a tua mão. E, quando encontra, nem pense em mexer a cabeça, lavar uma mão na outra, tentar pegar mais sabão. O menor movimento pode desligá-la para todo o sempre.

É o mesmo problema dos malditos, diabólicos, peçonhentos, nauseabundos, sebosos, chechelentos Hand-Dryers – Secadores Automáticos de Mãos. Com a desvantagem de que eles não secam as mãos. Seria preciso gastar a eletricidade de três dias de Itaipu pra conseguir secar um minguinho decentemente naquela bosta. E, se por acaso você quiser passar uma água no rosto, vai sair com a fuça molhada do banheiro. Quem, em sã consciência, vai meter a cara em um Hand Dryer pra tentar se secar?

Não há banheiro público que não tenha sido dominado por estes soldados do obscurantismo. Só resta o banheiro de nossas próprias casas. Eu vou tratar de proteger o meu. Não vou deixar nem visita entrar nele. Quer mijar, vai pra janela.

Thursday, August 04, 2005

Movimento MESMO

Voltando do show do Cake às duas da manhã, e sabendo que não ia pegar nenhum telejornal que mostrasse os lances de Inter x Santos naquele horário, comecei a pensar no que poderia ser feito de concreto para shows e festas começarem mais cedo em Porto Alegre – especialmente nos dias de semana. Se todo mundo que eu conheço prefere ir num show às 9 ao invés das 11h, o que está faltando para que isso aconteça?

Marcar festas e shows mais cedo não adianta. Todo mundo chega duas horas depois do marcado, sabendo que se chegar na hora vai ficar sozinho no balcão, pedindo long neck, olhando com cara de idiota pro garçom e se embebedando bem antes da hora.

Não tenho sugestões muito concretas para isso. A única idéia que tive até agora é começar a colocar um MESMO em caixa alta depois do horário. Exemplo:

Local: Dr. Jekyll
Horário: 21h MESMO

Sei não. Teria que ser muito difundido para funcionar. Se alguém tem mais alguma idéia, clique no comments aí.

Tuesday, August 02, 2005

Tiras

Retomei minhas atividades toscas de cartunista. Olhem aí:




Monday, August 01, 2005

Vizinho(a)

Descobri que tenho um vizinho traveco. Traveco mesmo, tipo aqueles que competiam dançando no Show de Calouros com placas de acrílico na cintura com os números 1 e 2. Um metro e oitenta, botas até a coxa, shortinho. E aquela cara de zagueiro do Glória de Vacaria pronto pra transformar o Rafael Sobis em patê.

Minha reação foi indignada, óbvio. Não porque ele é um atentado à moral e aos pétreos valores do condomínio, nem porque ele pode trazer seus clientes comedores de travecos pra dentro do prédio. Tô nem aí pra isso.

Minha preocupação foi a seguinte: tem dois tipos de apê no prédio. Os de um quarto, cujo aluguel custa uns 340, 360 reais (eu moro num desses), e os JK, que custam uns 280, 320 reais. Mais uns cento e poucos mangos de condomínio.

Imagine se ele mora num apê de um quarto, tipo o meu. Isso quer dizer que ele ganha mais ou menos como eu. E isso, em última análise, quer dizer que eu, formado, no mercado de trabalho há quase dez anos, conquistei mais ou menos o mesmo padrão de vida do que teria conquistado se tivesse colocado uns peitos, tomado uns remédios aí, implantado uns cabelos e ido tentar a vida na Farrapeira.

A não ser que o traveco seja casado, e, desta forma, divida as despesas com seu (sua) marido (esposa). Ou que ele tenha uma profissão paralela de dia. Tipo, seja professor(a) de jardim de infância, picareta(o) de carros, estivador(a) no cais do porto, atendimento(a) de produtora de vídeo, fiscal(al) de parquímetros na Padre Chagas, sei lá. Seria legal descobrir isso. Alguém aí tem uma fantasia de censor do IBGE pra me emprestar?

Vai dizer?

Tem gente que diz que casamento é uma coisa ultrapassada, uma instituição falida etc. Mas ultrapassado mesmo é o desquite. Ninguém mais diz que é desquitado.